O INÍCIO NO SUL DO BRASIL

Devido a impossibilidade de se conseguir um pedaço de terra para o cultivo próprio, e ao processo de russificação ocorrido no final do século XIX, muitos lavradores da Letônia imigraram para o interior da Rússia, e até mesmo a gelada Sibéria, em busca de uma gleba para cultivar. Outros, do interior, deixaram as lavouras e mudaram para a capital, Riga, onde buscavam trabalho nas fábricas. Estes também enfrentaram muitas dificuldades até acostumarem-se ao tipo de trabalho e ao ar poluído.Seu sonho era transferir dois milhões de letos para o Brasil.

No ano de 1888 dois jovens, o pastor Karlis Balodis e o filósofo Peteris Salits, já pensando em planos de colonização e imigração, vieram ao Brasil – mais precisamente à cidade de Desterro, capital do Estado de Santa Catarina, mais tarde chamada de Florianopólis, – com a finalidade de conhecer este país, conhecido como “terras quentes”. Tendo retornado a Letônia, abriram em Riga um “bureau” a fim de incrementar a imigração em larga escala e tendo por meta a transferência de dois milhões de letos para o Brasil.

Em abril de 1890 vinte e cinco famílias deixaram o porto de Riga, conforme descreveu o pastor Janis Inkis em Varpa, no ano de 1947:

«O convés do navio está repleto de cidadãos muito bem vestidos, com suas famílias, e vejo também crianças. O navio tem por destino inicial o porto de Lübeck, na Alemanha, e de lá continuará a sua viagem para o Brasil. O ambiente é alegre e otimista. Durante a despedida os homens bebem ao sucesso da viagem e do empreendimento, e as garrafas vazias são jogadas no rio Daugava.»

O pastor Janis Inkis, naquela época ainda jovem, perguntava em seu coração: “que bênçãos poderão aguardar na nova terra?” (ver Kristiga Draugs de 1992, números 1 e 2).«As garrafas vazias são jogadas no rio Daugava.»

Neste grupo havia alguns batistas: Janis Arums, sua esposa, seu filho adotivo Adolfo, e a senhora Katrini Bitait. Ao todo, quatro batistas.

Logo após a chegada no Brasil, apesar da colônia Rio Novo não ficar tão longe da estação ferroviária em Orleans, surgiram os problemas: desinformação, reclamações e arrependimento. Janis Arums, no entanto, aprovou a colônia, e já no começo organizava e dirigia os cultos.

Aqueles que retornaram para a Letônia levaram muitas informações desairosas e prejudiciais sobre a terra, que foram publicadas no jornal Baltijas Vestnesis (O Mensageiro do Báltico). Porém a opinião de Janis Arums era outra, e através de cartas ele mostrava situação muito diversa aos batistas de Riga.

Mais uma vez o pastor Janis Inkis foi testemunha ocular da saída do novo grupo de imigrantes, cuja maioria era, ou melhor, consistia de quase a totalidade da Igreja Batista de Daugavagrivas (Foz do Rio Daugava) – inclusive o coro e seu dirigente, que com batuta na mão perguntava aos seus cantores: “Quem quer conosco ir a Sião?” Deus tinha desejado formar bases para a imigração de batistas letos ao Brasil.

A Igreja Batista Leta de Rio Novo foi organizada em 20 de março de 1892, com 75 membros. Foi a primeira Igreja Batista de Santa Catarina e do sul do Brasil.

Quando das visitas do pastor Janis Inkis à colônia de imigrantes letos em Nowgorod, na Rússia, ele hospedava-se na casa de seu pai pastor Jekabs Inkis, que era o líder daquela Igreja, e aproveitava para contar do grande movimento de imigração para o Brasil. Isso gerou muito interesse, e organizaram-se outros grupos de imigrantes para o sul do Brasil. A Colônia do Rio Novo mostrou-se muito pequena para tantos que chegavam, e os novos imigrantes, originários de Kurzeme, estabeleceram-se às margens do rio Oratório. Porém a terra, que era muito pedregosa, oferecia obstáculos para as culturas. Depois de contatar pessoas do vizinho estado do Rio Grande do Sul, da Colônia de Ijuí, este grupo transferiu-se para lá.

Os primeiros professores do Rio novo foram Wilis Butlers, pai da Dra. Helen Butler, e Alexandre Klavim, progenitor do falecido Dr. Alexandre Klavim e da professora Selma Klavim.

Os primeiros obreiros, que em 1903 foram estudar com o pastor Karl Roth, em lingua alemã, no seminário em Porto Alegre, foram Alexandre Klavim, Janis Nettembergs, Fritzis Leimanis e Richard Inkis – sendo que este último se tornaria mais tarde um expoente do ensino no Seminário Ba­tista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro. Mais tarde foram também a Porto Alegre Vilis Leimanis, Peteris Salits e outros.

O trabalho batista cresceu e alcançou Oratório, Ijuí, Mãe Luzia, Alto Guarani, Massaranduba, Rio Branco, Terra de Zimermann, Bruendertall, Linha Telegráfica e, por que não, a Primeira Igreja de Nova Odessa. Em 1934 chegou a Urubici. O crescimento do trabalho foi igual ao de um carvalho: lento, mas poderoso.

Destes trabalhos surgiram novos obreiros, talvez mais de 130. Nomes como Keidans, Inkis, Klava, Leimanis, Liberts, Andermanis, Saetz, Purins, Peterlevitz, Butlers, Araiums, Paegle, Frischembruders, Seebergs, Leepkalns, Strautmanis, e Strobergs são por demais conhecidos. Esses obreiros alcançaram o Brasil, Argentina, Estados Unidos e Canadá.

Em 22 e 23 de março de 1992 a Convenção Batista Catarinense organizou, no Acampamento Batista Catarinense, a primeira parte da comemoração do Jubileu do Centenário da Organização da Igreja Batista do Rio Novo e, conseqüentemente, do trabalho Batista Leto no Brasil. Para esta comemoração vieram caravanas de diversos pontos do país. A semente tinha caído em boa terra.


Coligido e apresentado pelo pastor Ilgonis Janait por ocasião do Jubileu do Centenário em Varpa, no dia 11 de Julho de 1992.
Traduzido da revista Kristiga Draugs Nº 4 de 1992, por V. A. Purim)