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Introdução

O termo “apologia” aparece apenas duas vezes no Novo Testamento: Atos 25.16 e 2ª Coríntios 7.11.

Apologia – Refere-se à defesa particular, ou aos contra-ataques definidos. Exemplos: defesa de Cristo como Messias; a defesa que Paulo faz da sua autoridade apostólica; da superioridade do Cristianismo sobre o Judaísmo na epístola aos Hebreus; Reino de Deus etc. Exemplos de apologias extra-bíblicos: Justino que defende os direitos legais dos cristãos; Agostinho que defende a fé cristã e a Igreja diante do paganismo; Anselmo que defende a existência de Deus.

Apologética – É a ciência da defesa. É a defesa reduzida a um método científico. É a defesa feita cientifica e logicamente. Toda apologética é apologia, mas nem toda apologia é apologética. A apologia é apologética quando usa um método científico, ou quando apresenta os fatos cientificamente.

Propósito da Apologética Cristã – A apologética cristã é um ramo da teologia. A teologia trata do conteúdo da religião. A apologética trata da veracidade da teologia. Procura mostrar que aquilo que a teologia diz é verdade. A apologética é a defesa da teologia.
A Filosofia da Religião trata das origens, da natureza e do valor daquilo que cremos ou aceitamos em nossa teologia.
Os ataques à teologia procedem da ciência e da filosofia. Os cientistas são os que atacam os teólogos. Os cientistas têm sido inimigos dos teólogos.

Causa do Conflito – O teólogo pode dizer, por exemplo, que o mundo foi criado em seis (6) dias. O cientista diz que não. O cientista trata de assuntos que interessam à ciência, ao cientista. A interpretação do teólogo, às vezes, é deficiente, bem como também a do cientista. Os problemas surgem das deficiências dos teólogos e dos cientistas.

Objetivo da Apologética – O objetivo da apologética tem sido definido como uma interpretação defensiva do Cristianismo (Bruce). Apologética é o Cristianismo persuasivamente interpretado (Carvie); Não espera que venham os ataques; antes, procura evitá-los.

Alguns pontos históricos da Apologética Cristã:

1. Como estamos vendo, a Apologética Cristã é a defesa do Cristianismo contra os ataques externos. Esta defesa tem apresentado características diferentes nas várias épocas da história do Cristianismo.

2. Desde o seu começo histórico, a interpretação e propagação do Cristianismo tem tido um caráter apologético. Jesus legou a espada e não a paz. Luta que se iniciou desde a sua morte e ressurreição. A primeira literatura cristã, o Novo Testamento, é essencialmente apologética. Por exemplo: os Atos dos Apóstolos, a pregação de Pedro, no Pentecostes e depois; Paulo, com suas epístolas, Hebreus etc.

3. No segundo século, os ataques ao Cristianismo visavam a conduta dos próprios cristãos e não a sua doutrina. Vemos, portanto, os apologistas tais como: Justino Mártir, Aristides, Melito de Sardis, Tertuliano e outros com um método bem aperfeiçoado de defesa da conduta dos cristãos perante os magistrados.

4. No III século, os ataques do Cristianismo tinham um caráter mais doutrinário e menos pessoal. Isto modificou também o caráter da apologética. Como exemplo, podemos citar os ataques de Celso, platônico, que foram respondidos por Orígenes; os ataques de Juliano, respondidos por Cirilo de Alexandria. Celso foi o primeiro grande adversário polêmico. Escreveu “O Verdadeiro Discurso”. Orígenes escreveu “Contra Celsum”.

5. Na Idade Média, a apologética tinha um aspecto essencialmente filosófico. A defesa do Cristianismo estava relacionada com os problemas da própria fé cristã. Os principais apologistas deste período foram Anselmo (1053-1109), primeiro escolástico agostiniano e o primeiro a empregar o método científico no estudo do Cristianismo. Escreveu “Monologion”, e “Proslogion”. Abelardo, autor do “Dialogo entre o Judaísmo e Cristianismo”, o primeiro a formular o argumento a priori ou ontológico da existência de Deus. Temos ainda Tomás de Aquino, autor da “Suma Teológica contra os Gentios”.

6. No século XVIII, os apologistas precisavam defender o Cristianismo contra ataques dos deístas, ou defensores da idéia de uma religião natural. Temos, neste período, obras como a de Butler “Analogia”, de Paley “Evidências do Cristianismo”, na qual o autor responde aos ataques de Hume dirigidos contra a idéia de milagres. Paley foi autor do célebre argumento do desígnio no universo físico. Ataques contra a validez das Escrituras do Cristianismo, a relação entre as leis da natureza e a revelação especial. Palavra chave: bom senso.

7. No século XIX, como conseqüência do crescente agnosticismo e ceticismo, representados, por exemplo, por Huxley, Spencer, Haekel, os ataques contra o Cristianismo visavam principalmente a sua idéia do sobrenatural, assunto este ainda hoje não plenamente terminado. Huxley (1825-1897) era agnóstico, evolucionista, darwinista, biólogo. Spencer (1820-1903) procurou reconciliar a ciência com a religião.

8. No século XX, a apologética cristã visava o modernismo, o humanismo, ciências sociais e outras ideologias.

9. A situação contemporânea da Apologética Cristã é bastante diferente da do passado. O apologista de hoje não procura oferecer aos adversários do Cristianismo provas dogmáticas ou absolutas de sua veracidade. Pelo contrário, ele reconhece que procurar demonstrar a veracidade do Cristianismo com argumentação lógica, seria contrário à natureza da própria idéia cristã da revelação. O apologista de hoje apela ao coração, ao livre exame. Seu apelo à mente limita-se a mostrar que o Cristianismo é, sem dúvida, racional, crível. Mostra, por exemplo, que a existência de Deus é uma necessidade racional, embora não possa ser demonstrada com provas de rigor científico.

10. O apologista de hoje tem sido influenciado pelo espírito científico, de livre exame, de não aceitar coisa alguma só em base de autoridade de outros. A própria ciência está se tornando cada vez menos dogmática, mais coerente com a natureza do Cristianismo. Ênfase na racionalidade sem uma demonstração rigorosamente científica. A fé no caráter racional sem uma demonstração lógica final.

Aspectos do Cristianismo que precisam

ser interpretados apologeticamente:

O Cristianismo em si basta ser apresentado e aí já está a sua defesa.

a) Se formos considerar o Cristianismo como doutrina, precisamos defendê-lo diante de outras doutrinas, ou teologias não cristãs.
b) O Cristianismo tem o seu padrão moral e certo modo de vida; precisam ser defendidos em face de outros sistemas éticos.
c) O Cristianismo como Religião – O Cristianismo é uma religião histórica (têm suas instituições, ritos, organizações etc.). Há muitas religiões históricas que têm seus modos de agir. Temos então de mostrar a superioridade do Cristianismo sobre as demais religiões.
d) O Cristianismo como Filosofia – A Apologética visa defendê-lo diante de outros sistemas filosóficos, como: o materialismo, o idealismo, o realismo, comunismo etc.
e) O Cristianismo como caminho da salvação – Se formos considerar o Cristianismo como caminho da salvação temos que defendê-lo diante dos caminhos da salvação apresentados em outras religiões.

Esses são alguns aspectos do Cristianismo que precisam ser defendidos diante dos vários sistemas filosóficos e religiosos.

O Cristianismo precisa de defesa porque encontra rivais

A apologética cristã é uma interpretação do Cristianismo motivada por alguma necessidade externa, ataques ou possíveis ataques estes, de inimigos do Cristianismo ou dos que têm apenas dúvidas sobre determinados pontos do Cristianismo.

A razão dos choques entre a teologia, ciência e filosofia, está no fato de que nenhuma delas apresenta a verdade integral.

A apologética cristã procura servir de mediadora entre a teologia cristã de um lado e a ciência e filosofia do outro. Visa auxiliar a fé dos que têm dificuldades e dúvidas, e prepara o caminho para os que querem crer inteligentemente. Isso pelo fato de ser imperfeita a teologia de um lado e a filosofia e a ciência do outro. Se a teologia e a ciência fossem satisfatórias não haveria a necessidade de apologética.

A nossa preocupação deve ser a de procurar apresentar o Cristianismo tal como ele é realmente.

Será necessária uma apologética cristã? Será que este método de interpretar o Cristianismo sob pressão é o ideal? Claro que não é o método ideal. Expedientes sempre têm os seus perigos.

Como fazer frente aos problemas sem sermos obrigados? Qual é o método ideal? O método ideal seria apresentar uma interpretação do Cristianismo em si, visando a sua aplicação universal.

Como vamos resolver as necessidades práticas? Como vamos harmonizar o temporal com o eterno? Aí está o grande problema para o apologista. Toda profecia tinha uma aplicação imediata e também uma para qualquer tempo.

Precisamos interpretar o Cristianismo por causa do próprio Cristianismo e não só para atender às circunstâncias ou como expediente. Se o Cristianismo for interpretado de modo ideal, não haverá problemas.

A melhor apologética não é a que responde a perguntas, mas a que evita perguntas. A nossa finalidade deve ser expositiva e preventiva.

Uma apologética apenas defensiva é sinal de fraqueza. Se a interpretação do Cristianismo fosse ideal não haveria necessidade de simples defesa.

A finalidade da apologética cristã devia ser a de responder às necessidades da vida humana. Ainda não chega há cem (100) anos que o Cristianismo tem sido estudado filosoficamente.

Pré-requisitos para o estudo da Apologética

1. O apologista precisa conhecer a história do pensamento dos homens em geral. Precisa conhecer as ideologias e o pensamento presente. Precisamos fazer frente aos problemas presentes de modo tal que não surjam ataques contra o Cristianismo. Precisamos conhecer as idéias predominantes, as filosofias que são desfavoráveis ao Cristianismo e as diversas teorias científicas: materialismo, idealismo, humanismo, naturalismo, panteísmo, agnosticismo, positivismo, deísmo. Devemos estudar muito também o personalismo (interpretação de todas as coisas em termos de personalidade, tanto de ou em Deus, como no homem). Ler Knudson: “Philosophy of Personalism”.

2. Precisamos conhecer os pensamentos do tempo atual: materialismo prático, deísmo etc. Problemas no terreno da vida social e econômica.

3. Precisamos conhecer o próprio homem individual e coletivamente. Por quê? Porque o homem é um ser religioso, recipiente do Cristianismo. Pregamos ao homem e para sabermos pregar a ele precisamos conhecê-lo. Precisamos conhecer as várias ciências que estudam o homem: ética, antropologia, psicologia, biologia etc. O apologista precisa estar a par das interpretações que as ciências dão aos homens.

4. O apologista precisa conhecer o próprio Cristianismo; seus fatos e doutrinas básicas; sua história e seus ideais. Quanto se conhece do Cristianismo? Quanto tem sido interpretado? Estamos ainda no começo do Cristianismo.

5. Na apologética devemos ser moderados e não dogmáticos. A teologia é dogmática, porém, o apologista deve convencer sem dogmatizar.

6. Precisamos conhecer os problemas relacionados com a interpretação racional do Cristianismo.

Há problemas bem sérios:
a) Como apresentamos o Cristianismo a um cientista ou filósofo, que só aceita uma interpretação na base da razão e não da fé? Temos que mostrar a eles que também vivem na base da fé.
b) Onde está a autoridade para a interpretação do Cristianismo? Está no indivíduo.
c) Quais as características da verdade? Que é a verdade?

7. Precisamos conhecer os princípios da racionalidade. Quando é que uma interpretação é racional?
a) Quando podemos apresentar a causa da experiência.
b) Quando podemos apresentar o método, o processo da experiência.
c) Quando podemos mostrar a finalidade, o propósito da experiência.
d) Quando podemos apresentar unidade na experiência.
e) Quando podemos relacionar o fato particular com a experiência geral.


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